Julio Cabrera tagged posts

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Wittgenstein: entre o cinema mudo e Derek Jarman – por Julio Cabrera

Wittgenstein de Derek Jarman

O cinema sonoro inventou o silêncio

Robert Bresson

  1. Wittgenstein gostava de cinema. Mas, de qual?

Há alguns meses escrevi um texto chamado “Sartre e o cinema: crônica de um fracasso anunciado”. Esta é a segunda nota sobre o desencontro do cinema com algum filósofo contemporâneo importante.

O tema central da filosofia de Wittgenstein foi a questão dos limites da linguagem. Ele pensava que uma linguagem tinha que ter limites. Uma linguagem sem limites – na qual tudo pudesse ser dito – não era propriamente uma linguagem. Assim, uma linguagem não é impedida pelos seus limites, mas, pelo contrário, possibilitada por eles; ela vive de seus limites, estes a constituem como linguagem.

Por outro lado, Wittgenstein gostava muito de ir no cinema no final das suas aulas, em geral co...

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TERRENCE MALICK: NO CAMINHO DA MISTIFICAÇÃO DESDE “TERRA DE NINGUÉM” ATÉ “A ARVORE DA VIDA” – PEÇA EM CINCO ATOS – V – JULIO CABRERA

TerrenceMalick

ATO V. Epílogo: a metafísica do fogo. A metafísica do mal de Malick poderia entender-se visualmente em termos de fogo, presente em todos os filmes analisados: em Badlands, na queima da casa de Holly com o cadáver do pai dentro; em Days of Heaven, na queima dos gafanhotos com a luta dos dois homens pela mesma mulher. Não se trata aqui do fogo do inferno, mas do próprio fogo das paixões humanas, como se as ações de Kit, Bill e Abby tocassem fogo nas coisas, um fogo decorrente dos excessos existenciais humanos. Este fogo vai ficando fraco em Além da Linha vermelha; curiosamente, num filme de guerra cheio de material combustível, há fogo apenas numa cena, e muito mais fumaça do que fogo...

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TERRENCE MALICK: NO CAMINHO DA MISTIFICAÇÃO DESDE “TERRA DE NINGUÉM” ATÉ “A ARVORE DA VIDA” – PEÇA EM CINCO ATOS – IV – JULIO CABRERA

CABRERAARVOREDAVIDA

ATO IV. The tree of life (A árvore da vida, 2011). O moralismo consumado. “A árvore da vida” consuma plenamente este processo de exteriorização do humano, de construção metafísica do mal, e, para piorar as coisas, introduzindo uma chocante mistificação da Vida num viés salvador e redentor. Aqui as perguntas metafísicas se tornam apelativas e excessivas, asfixiantes em seu misterioso sussurrar, como se fossem profundas revelações. Já na citação inicial de Jô se culpa ao humano por não ter estado onde devia: “Onde estavas tu quando eu fundava a terra…quando as estrelas produziam harmonias e os anjos gritavam de alegria?”...

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TERRENCE MALICK: NO CAMINHO DA MISTIFICAÇÃO DESDE “TERRA DE NINGUÉM” ATÉ “A ARVORE DA VIDA” – PEÇA EM CINCO ATOS – III – JULIO CABRERA

CABRERAREDLINE

ATO III. The red thin line (Além da linha vermelha) (1998). Inícios da queda moralista. Vinte anos depois, a catástrofe moral se consuma. Em seu tardio filme The Red thin line (A Fina Linha Vermelha; aqui titulado: Além da linha vermelha), a coisa se complica. Enquanto nos filmes dos anos 70 o “mal” aparecia como força natural, como parte de uma paisagem agreste, neste terceiro filme Malick começa uma reflexão imagética acerca do mal, adotando uma visão externa aos fatos; o “mal” agora não aparece ligado com situações pessoais de ambição, inveja, ciúme ou desamparo, mas no âmbito de uma guerra, uma situação onde o matar – muitas mais pessoas das que Kit poderia eliminar sozinho – se legitima através de convenções humanas civilizadas.

Vozes em Off já apar...

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TERRENCE MALICK: NO CAMINHO DA MISTIFICAÇÃO DESDE “TERRA DE NINGUÉM” ATÉ “A ARVORE DA VIDA” – PEÇA EM CINCO ATOS – II – JULIO CABRERA

CABRERADIASPARAISO

ATO II. Days of heaven (Dias de paraíso, 1978). Entrando numa amoralidade cínica. Days of Heaven (Dias de paraíso) continua com a mesma temática – o mal e a inocência – mas agora de maneira mais atenuada, como se a destruição do outro demandasse uma explicação mais cuidadosa, menos animal; aqui o “mal” se torna, digamos, compreensível. Bill (Richard Gere) e Abby (Brooke Adams), os dois amantes pobres que viajam pelos campos buscando trabalho e pretendendo ser irmãos, enganam ao rico fazendeiro doente (Sam Shepard), simples e tímido, que se apaixona por Abby e casa com ela...

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TERRENCE MALICK: NO CAMINHO DA MISTIFICAÇÃO DESDE “TERRA DE NINGUÉM” ATÉ “A ARVORE DA VIDA” – PEÇA EM CINCO ATOS – I – JULIO CABRERA

CABRERABADLANDS

ATO I. Badlands (Terra de ninguém, 1973). A inocência do mal. A primeira obra de ficção de Terrence Malick, Badlands (Terra de ninguém na tradução brasileira) já mostra um fascínio pelo que, em termos filosóficos tradicionais, se pode chamar a “questão do mal”. Mas a saga de Kit (Martin Sheen) mostra uma espécie de inocência do mal espontâneo e puro, intensificado pelo relato despojado e evocativo de Holly (Sissy Spacek), a sua súbita namoradinha.

Apesar de matar pelo menos meia dúzia de pessoas (ele perde facilmente a conta), Kit não é realmente um delinqüente, um matador, um sádico, apenas um existente vazio e autêntico, profundamente apaixonado por Holly (nunca a agride, nem mesmo quando ela o deixa bravo)...

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Julio Cabrera

Colaborador Julio

Júlio Cabrera é professor da UnB, em suas palavras:
«Não consigo trabalhar docilmente em áreas já constituídas. A filosofia da lógica foi para mim um âmbito de contestação da Lógica Formal em suas pretensões de legislar sobre o sentido e validez dos discursos filosóficos. A filosofia da linguagem, uma oportunidade de contestar a hegemonia analítica nessa área e estudar a variedade de filosofias da linguagem (analíticas, hermenêuticas, meta-críticas) sempre em conflito mútuo. Minhas reflexões de Cinema e Filosofia podem ver-se como estudos sobre linguagem de imagens e criação imagética de conceitos. A ética, um domínio onde consegui desenvolver antigas intuições acerca da impossibilidade da moral, a imoralidade da procriação e uma possível moralidade do suicídio...

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Sartre e o cinema: crônica de um fracasso anunciado – Julio Cabrera

sartre-Julio

Como é sabido, Sartre tentou várias vezes aproximar-se do cinema. Em 1931, Simone De Beauvoir disse: “Havia um modo de expressão que Sartre colocava quase tão alto como a literatura: o cinema”. Na sua estada no Brasil em 1960, Sartre considerou o cinema mudo como “uma maravilhosa escola de compreensão, hoje desaparecida”. Desde “Les jeux sont faits”, de Jean Delannoy, de 1947, até “Le mur”, de Serge Roullet, de 1967, passando pelo “Os condenados de Altona” de Vittorio de Sica, de 1962, diversos textos de Sartre foram levados para o cinema. Grandes nomes do cinema (como John Huston, Vittorio Gassman, De Sica) estiveram ligados a alguns destes projetos, mas não adiantou, nenhum deles acabou num filme memorável. O amor de Sartre pelo cinema não foi correspondido.

A mi...

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