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TERRENCE MALICK: NO CAMINHO DA MISTIFICAÇÃO DESDE “TERRA DE NINGUÉM” ATÉ “A ARVORE DA VIDA” – PEÇA EM CINCO ATOS – III – JULIO CABRERA

CABRERAREDLINE

 

ATO III. The red thin line (Além da linha vermelha) (1998). Inícios da queda moralista. Vinte anos depois, a catástrofe moral se consuma. Em seu tardio filme The Red thin line (A Fina Linha Vermelha; aqui titulado: Além da linha vermelha), a coisa se complica. Enquanto nos filmes dos anos 70 o “mal” aparecia como força natural, como parte de uma paisagem agreste, neste terceiro filme Malick começa uma reflexão imagética acerca do mal, adotando uma visão externa aos fatos; o “mal” agora não aparece ligado com situações pessoais de ambição, inveja, ciúme ou desamparo, mas no âmbito de uma guerra, uma situação onde o matar – muitas mais pessoas das que Kit poderia eliminar sozinho – se legitima através de convenções humanas civilizadas.

 

Vozes em Off já apareciam nos dois primeiros filmes, mas em função estritamente narrativa, as vozes de Holly e Linda contando os fatos brutos de maneira concisa e quase apática; pelo contrário, a voz em Off de Além da Linha Vermelha se torna reflexiva, filosófica, julgadora, terceirizada; pergunta-se angustiadamente pelo sentido do que está acontecendo; o olhar toma distancia da violência da vida, que fica referida ao absurdo e ao mal como se fossem “desvios” de um paraíso perdido pelos homens.

 

Como a guerra é um local sem inocência, o angelical soldado Witt (protagonizado por Jim Caviezel, que depois faria o Cristo de Mel Gibson) é quem traz a inocência para dentro dos acontecimentos. As frases em Off se tornam agora indagadoras; talvez as perguntas sejam feitas por Witt, o soldado filósofo que vê uma faísca nas pessoas, e que se imola pelos companheiros numa ação suicida. Mas também poderiam ser feitas por uma espécie de Voz Moral superior, o que é sugerido pelo fato das vozes em Off continuarem a colocar perguntas metafísicas depois de Witt ter sido morto pelos japoneses.

 

Todas estas perguntas sussurradas pressupõem um mundo profundo e puro que os homens destruíram com suas ações, uma espécie de beleza original perdida; começa aqui um julgamento externo, onde a pureza perpassa a vida, mas da qual os humanos foram como expulsos. Frases como: “Quem é você para assumir tantas formas?” supõe que as partes conflitantes (na guerra) foram, no início, uma coisa só. “Por que a natureza está em guerra consigo mesma?” supõe que a luta das espécies seja uma espécie de anomalia adventícia, em lugar de, simplesmente, o ser mesmo do mundo. Ou: “Esse grande mal, como se entranha no mundo?”, sugere que os conflitos e lutas entraram no mundo, em lugar de surgir da sua própria natureza; a frase: “Será que a nossa ruína beneficia a Terra?” pergunta por uma espécie de télos, de sentido que oculta a ruína intrínseca ao mundo. “Éramos uma família, como foi se desfazer?” sugere um paraíso perdido pelas culpas humanas.

 

 

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